
08/09/2008
Em Rondônia, a ameaça são os búfalos
Por Tão Gomes, para a Agência Amazônia
Depois da corrupção, agora são os búfalos de Rondônia que estão sem
controle. E contra esses robustos animais de nada adianta a PF
reproduzir os métodos utilizados na Operação Dominó. A PF não pode,
por exemplo, fazer escuta telefônica de conversas entre búfalos. Nem
mesmo com autorização judicial. Mas em alguns pontos a operação anti-corrupção e a dos vários órgãos públicos e ONGs envolvidos na anti-búfalo se parecem.
Ambas exigiram um trabalho de paciência. No caso da anti-búfalos,
começou há dois anos, usando aviões para avaliar o tamanho da
população de búfalos.
O projeto tinha como objetivo principal a retirada de todos os
animais da reserva Costa Marques. O censo aéreo estimou que a
população de búfalos selvagens na região do Guaporé, na fronteira
com a Bolívia, seja de aproximadamente 4 mil indivíduos.
Divididos em grupos de 30 a 100 cabeças, os animais nunca tiveram
contato com o homem e agora estão se reproduzindo em massa,
destruindo uma reserva ambiental de 600 mil hectares protegida por
lei.
Os pesquisadores ainda não conseguiram capturar nenhum indivíduo.
Com os corruptos foi mais fácil. Em dois dias a Dominó prendeu 24
deles. Em Rondônia é mais simples algemar o presidente do Tribunal
de Justiça do que laçar um búfalo bravo. "Os animais atacam até
helicópteros que tentam pousar na floresta", diz Francisco Leônidas,
biólogo da Embrapa em Rondônia.
Os búfalos são nativos da Ásia e foram introduzidos no Brasil
inicialmente na Ilha do Marajó, que detêm 80% da população desses
animais.
No Pará, e no resto do país, no entanto, os búfalos são
domesticados, bastante úteis, e convivem pacificamente com o homem.
No caso de Rondônia, os búfalos do Vale do Guaporé (e a corrupção
também) foram levados pela mão do homem.
Na década de 50, o governo de Rondônia teve a idéia de transportar
30 cabeças da Ilha de Marajó para a fazenda Pau D`Óleo. O projeto imaginava que o rebanho produzisse leite e ajudasse a desenvolver as
comunidades carentes da região.
Não deu certo e, em 1953, os 30 búfalos foram soltos na floresta.
Até então eram dóceis. O bando solitário seguiu para o Vale do
Guaporé, uma região pantanosa. No alagado, eles encontraram as
condições ideais para a reprodução.
Hoje, 53 anos depois, os búfalos transformaram-se num grave problema
ecológico. As novas gerações são embrutecidas e violentas, mais ou
menos como as novas gerações de corruptos. Por onde caminham, os
animais pisam pelo pântano, e acabam drenando o solo, destruindo
diversos ecossistemas. Em suma, como os corruptos de pedaço, são
autênticos predadores. Em algumas regiões, estão alterando os cursos
d´água além de destruírem igarapés.
Para se ter uma noção da selvageria desses búfalos, uma manada de 20
deles entrou numa fazenda abandonada e se deparou com a sucata de um
trator abandonado. Ao ver a máquina um dos animais começou a chifrar
o veículo. "Eles nunca haviam visto um trator. Na imaginação deles
aquilo era uma ameaça", relata Leônidas.
As autoridades de Rondônia tiveram a mesma reação diante da ação
policial. Eles com certeza nunca haviam visto diante deles um
delegado da Polícia Federal dando-lhes voz de prisão.
Também num outro aspecto os corruptos de Rondônia se parecem com a
praga dos búfalos. Uma equipe de pesquisadores franceses tentou
laçar um dos búfalos do Guaporé para pesquisa.
"O problema é que, quando um deles é laçado, pelo menos cinco
animais se voltam para enfrentar o laçador e salvar o companheiro",
conta Leônidas. Como eles impõem medo, a saída é soltar o animal.
Enfim, é o mesmo corporativismo que logo, logo vai fazer a polícia
desistir e mandar de volta pra casa toda a manada. E seja o que Deus
quiser.
Fonte: http://envolverde.ig.com.br/
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